Esse é o diário de uma storyteller. Um lugar onde eu mostro o que ninguém vê… antes de virar história.
Eu não tenho uma vida interessante pra contar.
A mensagem que eu mais recebo tem variações, mas o núcleo é sempre o mesmo.
“Luênia, mas minha vida não tem nada de especial.”
Ou: “Eu não tenho histórias interessantes pra contar.”
Ou ainda: “Isso funciona pra você porque sua vida é mais movimentada, você tem o Apollo, você tem esse jeito de ver as coisas… eu não tenho nada disso.”
E eu sempre paro um segundo quando leio isso. Porque reconheço. De um jeito muito físico, muito real, eu reconheço esse pensamento.
Eu já tive ele.
Antes de entender o que narrativa realmente é, eu também olhava pra minha vida e pensava: isso aqui não tem valor de história. O dia repetido. A rotina que é a mesma. A ausência de grandes viradas, de momentos cinematográficos, de aquela cena que muda tudo.
E aí eu ficava esperando. Esperando que algo grande acontecesse pra eu ter o que contar.
Nada acontecia. Ou acontecia, mas eu não reconhecia como história. Porque eu estava procurando o errado.
Aqui está o problema real, e eu quero ser muito direta sobre isso:
A gente foi ensinada pela TV, pelos filmes, pelos livros que lemos na escola que narrativa é sinônimo de drama. De reviravolta. De coisa grande que muda uma vida. Alguém perdendo tudo. Alguém recomeçando do zero. Aquele momento de virada que você consegue identificar claramente como antes e depois.
E aí a gente olha pra própria vida
o café frio porque a criança acordou antes da hora, a conta que ficou pra semana que vem, a discussão boba com o marido que não foi resolvida direito, o dia inteiro passado em casa sem sair e conclui: isso não é nada.
Mas é exatamente aí que a confusão mora.
Porque a narrativa que conecta de verdade não é a que tem mais drama. É a que tem mais verdade.
E a vida comum especialmente a vida comum é cheia de verdade. De detalhes que todo mundo vive mas ninguém nomeia. De sentimentos que ficam sem palavras porque ninguém parou pra descrevê-los ainda. De momentos pequenos que carregam um peso enorme que a gente aprendeu a ignorar porque não parece suficientemente importante pra mencionar.
Quando eu escrevo sobre o Apollo derrubando o suco e eu ficar olhando pra cena em vez de limpar, eu não estou contando uma história extraordinária. Estou nomeando algo que muita mãe sente e nunca viu descrito em lugar nenhum. Essa distância entre viver e observar. Esse estranhamento de si mesma.
É isso que faz a pessoa parar.
Não o drama. O reconhecimento.
Então quando alguém me diz que não tem uma vida interessante pra contar, o que eu ouço por baixo disso é: eu não sei enxergar minha vida como narrativa ainda. E isso é completamente diferente de não ter história.
Todo mundo tem história. O que varia é o olhar.
E o olhar é uma coisa que se treina. Não da noite pro dia, mas se treina. Começa com prestar atenção em detalhes que você normalmente deixaria passar. O som de alguma coisa. Um gesto que a pessoa fez antes de responder. A sensação exata que você teve num momento que pareceu insignificante mas ficou na sua cabeça por dias.
Começa aí. Nesse nível de atenção.
A história já estava lá. O que faltava era alguém ensinando você a olhar.
Eu escrevo mais sobre como esse olhar funciona na prática em outros textos aqui no blog. Mas começa nessa objeção que você trouxe agora. Porque o fato de você sentir que sua vida não tem história suficiente? Isso já é narrativa. Já é o começo de alguma coisa.
Você só ainda não percebeu.

