Esse é o diário de uma storyteller. Um lugar onde eu mostro o que ninguém vê… antes de virar história.
O dia que eu percebi que minha vida é um roteiro.
O Apollo derrubou o copo de suco às 9h17 da manhã.
Eu ouvi o barulho antes de ver. Aquele som de plástico batendo na mesa, seguido do silêncio de meio segundo que antecede o desastre. Depois o líquido laranja escorregando devagar pela lateral da mesa, chegando na beirada, pingando no chão.
Ele olhou pra mim.
Esperou.
Eu não gritei. Não porque sou uma mãe zen não sou, de jeito nenhum mas porque alguma coisa em mim ficou do lado de fora da cena. Como se eu estivesse atrás de uma câmera, observando tudo acontecer em câmera lenta.
Isso aqui é ação. Isso aqui é emoção contida.
Aí veio o incômodo.
Não o incômodo do suco derramado. O outro. O que fica.
Eu percebi, naquele momento exato, que faz um tempo um tempo longo, honestamente que eu não vivo as coisas só pra vivê-las. Eu narro enquanto acontecem. Fico procurando o ponto de entrada. O detalhe que vai segurar o leitor. O gesto pequeno que carrega o peso de tudo.
O Apollo ainda estava me olhando. Esperando alguma reação.
E eu estava pensando no enquadramento.
Isso é perturbador? Talvez. Não sei mais. Passou de perturbador pra normal em algum ponto que eu não consegui marcar no calendário.
O suco foi parar no meu caderno. Nas anotações de um texto que eu ia publicar naquele dia. A tinta borrou. As palavras que eu tinha escrito de madrugada, quando o Apollo finalmente tinha dormido e eu tinha roubado trinta minutos pra escrever, viraram uma mancha laranja no meio da página.
Eu tirei uma foto.
Depois fiquei olhando pra foto por uns três minutos tentando entender por que eu tinha feito isso. Por que a reação imediata foi documentar em vez de limpar. Por que meu cérebro foi direto pra isso vai virar alguma coisa antes de ir pra preciso de um pano.
Não cheguei numa resposta definitiva.
Mas cheguei em alguma coisa que parece verdadeira: narrativa, pra mim, não é uma técnica que eu aprendi. É um mecanismo que foi se formando ao longo do tempo como uma forma de lidar com o que acontece. Transformar o que dói, o que confunde, o que é banal demais pra parecer importante transformar em algo que eu consigo ver de fora.
Não sei se isso é saudável.
Provavelmente tem dias que não é.
Tem dias que eu queria só viver a cena sem já estar editando ela na cabeça. Só ser mãe do Apollo sem estar pensando em como esse momento poderia começar um texto. Só sentar no silêncio da tarde sem transformar o silêncio em metáfora.
Mas aí eu penso: e se for exatamente isso? E se a narrativa não for uma camada que eu coloco por cima da vida, mas a forma como eu processo ela? A forma como eu organizo o que não faz sentido, o que é grande demais, o que eu não consigo segurar de outra maneira?
O Apollo foi brincar. O suco secou. Eu limpei a mesa e perdi metade das anotações.
Mas esse texto aqui nasceu.
E talvez seja isso que o diário existe pra mostrar. Não os bastidores bonitos da criação. Não o método. Não a estratégia.
O momento antes. O pensamento que acontece enquanto a vida ainda está acontecendo. O instante em que a cena real e a cena escrita existem ao mesmo tempo no mesmo lugar, e eu ainda não sei qual vai ficar.
Hoje ficaram as duas.
Amanhã o Apollo vai derrubar outra coisa. E eu provavelmente já vou estar pensando no enquadramento antes de pegar o pano.
